Chumbinho faz vítimas na Bahia e expõe riscos dos envenenamentos no estado
Uma refeição feita às pressas, um medicamento guardado no armário de casa ou um veneno vendido ilegalmente em feiras e ruas podem ter consequências graves. Os casos de intoxicação continuam fazendo vítimas em todo o país e preocupam autoridades de saúde. Embora boa parte das ocorrências esteja relacionada a acidentes domésticos, principalmente envolvendo crianças, médicos e especialistas também observam a presença de episódios provocados por ingestão intencional de substâncias tóxicas, incluindo medicamentos e raticidas clandestinos, como o chumbinho.
Dados do Ministério da Saúde mostram que o Brasil registra, em média, 148 mortes por ano por intoxicações e envenenamentos. Nos últimos dez anos, o Sistema Único de Saúde (SUS) contabilizou cerca de 45,5 mil internações e aproximadamente 1.480 óbitos relacionados a essas ocorrências. Entre os principais agentes envolvidos aparecem medicamentos, produtos químicos utilizados dentro de casa e venenos comercializados ilegalmente.
Na Bahia, os números mais recentes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) mostram que o problema continua presente. Entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025 foram registrados 908 casos de intoxicação por chumbinho. Segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), a média foi superior a 300 ocorrências por ano. Apesar de proibido, o produto continua circulando de forma clandestina e segue entre os agentes tóxicos que mais preocupam os órgãos de vigilância em saúde.
Para a infectologista Daiana Torres, a permanência desses registros demonstra que o problema continua exigindo atenção das autoridades sanitárias. “Os casos de intoxicação por raticidas clandestinos preocupam porque estamos falando de substâncias cuja composição muitas vezes é desconhecida. Isso aumenta o risco de quadros graves e dificulta o tratamento médico, já que nem sempre é possível identificar rapidamente qual agente tóxico foi ingerido”, explica.
De acordo com os registros da Sesab, foram notificados 302 casos em 2023, outros 353 em 2024 e mais 253 em 2025. O levantamento mostra que Salvador concentrou mais da metade das ocorrências registradas no período. Foram 470 casos na capital, o equivalente a 51,8% do total. Feira de Santana aparece em seguida, com 44 notificações, seguida por Simões Filho, Itabuna, Alagoinhas e Lauro de Freitas.
Segundo os dados do Sinan, a maior parte das vítimas tinham entre 20 e 34 anos de idade. Essa faixa etária respondeu por 41,9% dos registros. Pessoas entre 35 e 49 anos representaram outros 30,4%. Juntas, as duas faixas somam mais de 70% dos casos registrados no estado.
As mulheres aparecem com ligeira predominância entre as vítimas. Conforme o levantamento da Sesab, elas representaram 53,3% das notificações. Os dados também mostram que a residência foi o principal local de ocorrência, concentrando 72,1% dos episódios registrados.
O perfil dos casos chama atenção por outro motivo. Segundo a Secretaria da Saúde, aproximadamente 86% das intoxicações por chumbinho tiveram relação com tentativas de suicídio. Os acidentes responderam por 7,2% das notificações. Também foram registrados casos associados à violência, abuso e ingestão de alimentos ou bebidas contaminadas.
“O fato de a maior parte dos casos estar relacionada a tentativas de suicídio mostra que essa questão não pode ser analisada apenas como um problema toxicológico. Existe uma importante dimensão de saúde mental envolvida, que exige acolhimento, prevenção e acesso aos serviços especializados”, destaca a médica
A gravidade dessas ocorrências aparece nos números de hospitalização. De acordo com a Sesab, 612 pacientes precisaram ser internados, o equivalente a 67,4% dos registros. Entre os casos acompanhados, 37 evoluíram para óbito em decorrência direta da intoxicação exógena provocada pelo produto.
Um pastel quase terminou em tragédia
O aposentado Ricardo Alencar conhece de perto os riscos de uma intoxicação. O caso aconteceu de forma acidental e começou dentro da própria casa. Ele conta que havia retornado de uma viagem antes do previsto. Ao chegar, encontrou um pastel sobre a mesa da cozinha e resolveu comer. Pouco tempo depois começaram os sintomas.
“Passei mal de repente. Vieram os vômitos, uma tontura forte e ninguém entendia o que estava acontecendo. Depois descobriram que eu tinha ingerido veneno sem querer. Minha irmã não sabia que eu voltaria naquele dia e acabou deixando aquilo por perto. Hoje a gente lembra da história e dá risada, mas na hora foi um susto muito grande”, relata.
Segundo especialistas, situações semelhantes são mais comuns do que se imagina. Produtos tóxicos armazenados em locais inadequados, recipientes sem identificação e a proximidade com alimentos aumentam o risco de acidentes domésticos.
Medicamentos também preocupam
Embora o chumbinho seja um dos produtos mais associados aos casos graves de envenenamento, os medicamentos também aparecem com frequência nas estatísticas nacionais de intoxicação.
A médica infectologista Daiana Torres explica que muitos remédios considerados comuns podem provocar consequências sérias quando ingeridos em quantidade inadequada ou sem orientação médica.
“Dependendo da substância envolvida, o paciente pode apresentar náuseas, vômitos, alterações neurológicas, dificuldade respiratória, convulsões e comprometimento de órgãos importantes. O atendimento rápido faz diferença para evitar complicações e aumentar as chances de recuperação”, afirma.
Segundo a especialista, os cuidados devem começar dentro de casa. Medicamentos, produtos de limpeza e substâncias químicas devem permanecer fora do alcance de crianças e armazenados de forma segura.
“Muitas intoxicações poderiam ser evitadas com medidas simples. É importante manter esses produtos em locais protegidos e procurar assistência médica imediatamente diante de qualquer suspeita de ingestão ou contato com substâncias tóxicas”, orienta.
Comércio ilegal continua alimentando estatísticas
Apesar da proibição, o chumbinho continua sendo encontrado em pontos de venda clandestinos em diversas cidades brasileiras. O produto costuma ser comercializado sem rótulo, sem identificação da composição química e sem qualquer controle sanitário.
Especialistas alertam que essa falta de controle aumenta os riscos para quem manipula ou ingere a substância. Em muitos casos, nem mesmo as equipes médicas conseguem identificar rapidamente qual agente tóxico foi utilizado, dificultando o tratamento.
Segundo profissionais que atuam na área de toxicologia, a fiscalização é um dos caminhos para reduzir a circulação do produto. No entanto, eles ressaltam que o enfrentamento do problema também passa pela prevenção, pela informação e pela ampliação do acesso aos serviços de saúde mental.
Enquanto isso, os números continuam chegando aos sistemas de notificação. Na Bahia, os mais de 900 casos registrados em apenas três anos mostram que o problema permanece presente e continua exigindo atenção das autoridades e da população.
Fonte:TRBN


