
Salvamar registra 360 ocorrências de afogamento e alerta para mar mais agitado no inverno
Salvador já registra 360 ocorrências de afogamento desde o início, segundo dados da Coordenadoria de Salvamento Marítimo (Salvamar). Somente em agosto, foram 11 casos. Quatro pessoas morreram. O número chama atenção em um período em que os ventos estão mais fortes, há maior ocorrência de chuva e o mar apresenta uma configuração diferente da observada nos meses mais quentes.
De acordo com o coordenador da Salvamar, Kailani Dantas, o inverno é um período que exige maior atenção das equipes porque as condições naturais do mar favorecem a formação de ondas e correntes mais fortes. “Período delicado, de alta estação, estamos no inverno, período de vento, de mais chuva e os afogamentos acontecem de forma natural. Temos um crescente de ocorrências de afogamentos nesse período”, afirmou.
Segundo Kailani, o aumento das ocorrências não pode ser explicado simplesmente por uma maior presença de banhistas nas praias. Para ele, as condições do mar têm peso importante. “As ocorrências não aumentam por causa do fluxo de banhistas, pois banhistas não estão indo para a praia. Mas no final de semana específico que passou pegamos muito sol e o mar com configuração de inverno, muitos afogamentos, toda orla da Bahia”, relatou.
Tempo
O fim de semana mencionado pelo coordenador teve justamente essa combinação. O tempo estava aberto e havia sol, mas o mar permanecia com ondas e correntes características do período. Entre os atendimentos realizados pela Salvamar esteve o resgate de um jovem de 22 anos, por volta das 18h30. Conforme Kailani, a força das ondas era tamanha que o rapaz foi retirado da água sem as roupas, que acabaram sendo levadas pela força da água.
As equipes também atenderam ocorrências nas praias do Flamengo, Stella Maris, Piatã e Jaguaribe. Na Região Metropolitana, houve registro de afogamento em Villas do Atlântico, em Lauro de Freitas. Para os atendimentos, a Salvamar utiliza guarda-vidas, jet skis e drones, além de contar com o apoio do Corpo de Bombeiros quando a ocorrência exige uma operação maior.
O comportamento do mar muda ao longo do ano e pode mudar também dentro de um mesmo dia. Durante o inverno, a atuação dos ventos sobre o litoral baiano contribui para o aumento da agitação marítima. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o período também é marcado por maior ocorrência de chuvas no setor leste da Bahia, enquanto os ventos úmidos que chegam do oceano influenciam diretamente as condições meteorológicas do litoral.
Correntes
Não é apenas o tamanho das ondas que preocupa. As correntes de retorno estão entre as situações mais perigosas para quem entra no mar sem conhecer o local. Elas são faixas de água que retornam em direção ao oceano e podem levar rapidamente o banhista para longe da areia. Quem é surpreendido costuma tentar nadar diretamente contra a corrente, mas essa reação pode provocar cansaço e dificultar ainda mais o retorno.
Orientações + A orientação, segundo os órgãos de salvamento, é não tentar vencer a correnteza nadando de frente para ela. O banhista deve procurar manter a calma, permanecer na superfície e tentar sair lateralmente do fluxo. Só depois de deixar a corrente é que deve procurar retornar para a praia.
As marés também fazem parte dessa equação. O nível do mar varia diversas vezes ao longo do dia e pode alterar a profundidade e a forma como as ondas quebram em determinados pontos. No domingo (16), por exemplo, Salvador teve maré alta de 2,42 metros às 6h10, baixa de 0,27 metro às 12h16 e novamente maré alta de 2,20 metros às 18h27.
O dado é especialmente relevante porque uma das ocorrências citadas pela Salvamar aconteceu justamente por volta das 18h30. Isso não significa que a maré tenha provocado o afogamento, mas mostra que o horário coincidia com uma mudança importante no nível do mar.
A maré, porém, não deve ser analisada isoladamente. Segundo especialistas e órgãos de salvamento, o risco resulta da combinação entre nível da água, vento, ondas, correnteza, relevo do fundo e características específicas de cada praia.
Um dos comportamentos que mais preocupam os guarda-vidas em Salvador é o hábito de pular de pedras, paredões e outros pontos elevados diretamente no mar. Na Barra, a prática é comum em alguns trechos e pode parecer inofensiva para quem observa de fora. O problema é que não é possível determinar apenas olhando para a água qual é a profundidade daquele ponto.
Maré
Pedras, bancos de areia e outras estruturas podem estar escondidos sob a superfície. A profundidade também muda conforme a maré. Uma pessoa que pula de um local alto pode ainda ser levada pela onda no momento da queda e atingir uma área diferente daquela que imaginava. Se houver corrente forte, a dificuldade continua depois do salto, já que o banhista pode não conseguir retornar ao ponto de onde saiu.
Por isso, a recomendação é evitar saltos de locais elevados, principalmente quando o mar estiver agitado. O fato de determinado ponto ser utilizado frequentemente por outras pessoas não significa que ele esteja seguro naquele momento.
Os registros de 2026 mostram que os afogamentos não se concentram apenas no inverno. Logo nos primeiros dias do ano, quando as praias estavam cheias por causa do verão, a Salvamar contabilizou 57 ocorrências nos quatro
primeiros dias. Entre os dias 5 e 9 de janeiro, foram registrados outros 20 casos.
Perigo
Casos registrados ao longo dos últimos meses mostram que diferentes pontos da cidade podem apresentar situações perigosas. Em maio, três turistas de Caculé foram resgatados depois de terem dificuldades no mar entre Stella Maris e Flamengo. Segundo informações divulgadas na época, eles perderam o apoio dos pés e tiveram dificuldade para retornar à areia.
Também em maio, um homem de 75 anos morreu afogado no Porto da Barra. Conforme as informações divulgadas após a ocorrência, ele foi encontrado desacordado sendo levado pela correnteza. No mesmo período, outro caso grave foi registrado na Praia de Jaguaribe, onde um homem morreu depois de entrar no mar durante uma tentativa de ajudar a filha que estava sendo puxada pela correnteza.
Em julho, uma jovem também precisou ser resgatada depois de ser arrastada pela correnteza na Praia da Paciência, no Rio Vermelho. O caso ocorreu em um período de mar agitado e reforçou a preocupação com as correntes de retorno, que podem aparecer mesmo quando as ondas não parecem tão grandes para quem está na areia.
Crianças precisam de atenção ainda maior. Segundo as orientações de salvamento, elas não devem permanecer na água sem a presença próxima de um adulto. Boias e outros objetos infláveis também não substituem a supervisão, principalmente em áreas de mar aberto.
Bebida
O consumo de bebida alcoólica é outro fator de risco. A pessoa que bebe pode ter sua capacidade de avaliar profundidade, correnteza e distância comprometida e ainda apresentar uma reação mais lenta diante de uma situação de perigo. A orientação é não entrar no mar depois de consumir álcool.
E, quando alguém estiver se afogando, a recomendação é não entrar na água sem preparo para tentar fazer o resgate. Uma pessoa que tenta ajudar pode acabar sendo puxada pela vítima e se tornar também um caso de afogamento. O mais seguro é chamar imediatamente um guarda-vidas ou o Corpo de Bombeiros e, se houver um objeto flutuante disponível, lançá-lo para a pessoa.
O inverno termina oficialmente em 22 de setembro. Até lá, a tendência é que a influência dos ventos e das chuvas continue interferindo nas condições do mar. Mas, para a Salvamar, a atenção não deve ficar restrita aos próximos dias. Os 360 casos registrados neste ano mostram que o risco existe durante todo o calendário.
Fonte: Trb.

