
Professora baiana que acertou o tema da redação do Enem 2024 compartilha como projeto anti-racista impactou a vida dos alunos
Foto: Maurício Reis / Acervo pessoal
Uma professora de Língua Portuguesa de Cipó, cidade baiana localizada a 240 km de Salvador, viralizou nas redes sociais após aparecer em um vídeo sendo ovacionada pelos alunos por ter antecipado o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Maria Ivone das Neves dos Santos, uma das pessoas mais comentadas do Brasil atualmente, trabalhou com os alunos do Colégio Estadual de Tempo Integral Águas Termais de Cipó uma dissertação com o mesmo tema proposto oficialmente, apenas dois dias antes da primeira etapa da prova, realizada no domingo (3).
O feito, no entanto, não foi um simples golpe de sorte, mas sim o resultado do “Projeto Interdisciplinar Afro-brasileiro: Possibilidades de uma Educação Antirracista”, uma iniciativa que surgiu como ideia no final de 2023. Respaldada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas brasileiras, Mary (como é carinhosamente conhecida) iniciou o programa antirracista com os estudantes em fevereiro deste ano.
Utilizando em sala de aula a perspectiva da autodeclaração étnico-racial, promovida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a docente comentou, em entrevista ao BN Hall, que percebeu a carência de conhecimento dos alunos sobre sua própria identidade. “Eu percebi que durante essa autodeclaração, a partir de dinâmicas e aulas, que eles [alunos], não se percebiam remanescente de quilombos, nem tão pouco pretos”, declarou Mary, que, logo em seguida, deu início à fase de conscientização.
O município de Cipó conta com três comunidades remanescentes de quilombos: Rua do Jorro, Várzea Grande e Caboge, que também serviram de inspiração para as intervenções propostas no projeto.
Para tanto, a professora recorreu à arte como método de ensino, utilizando a literatura afro-brasileira. Em sala de aula, trabalhou com obras como Úrsula, o primeiro romance escrito por uma mulher negra no Brasil, de Maria Firmina dos Reis. Em seguida, Maria Ivone teve contato com o afrofuturismo, gênero fundamental para dar continuidade à sua ideia. “O afrofuturismo trabalha na perspectiva de um futuro esperançoso para a população preta. Já se sabe que ele [o povo preto] foi violentado, que sofreu muitos castigos. Isso já é conhecido”, disse. “Mostrei, a partir de leituras, que o berço da nossa civilização é africano, não europeu”, completou.
Ampliando o alcance da representatividade, Mary analisou músicas e perfis de artistas negros, revisitando letras do grupo Racionais MC’s. Em maio, promoveu sessões de Cine Debate, exibindo Pantera Negra (2018), filme da Marvel que conta a história de Wakanda, um reino fictício, e que fez história ao ser o primeiro filme de herói indicado ao Oscar de Melhor Filme. “Foi feito um cronograma de sessão. Primeiro eu fiz uma motivação em toda a escola com cartazes imensos no banheiro. Pantera Negra é representatividade o tempo todo, […] eles [os alunos] se sentiram representados. Em Pantera Negra tem afrofuturismo!”.
Foi então que Mary sugeriu a primeira dissertação para as turmas inseridas no projeto. “Pedi um projeto de texto dissertativo cujo tema era ‘A Persistência do Racismo na Sociedade Contemporânea’. Foi a primeira redação, em maio!”.
Em agosto, as atividades continuaram. Os jovens foram incentivados com tarefas dinâmicas e desafiados a identificar espaços sociais onde a presença do negro se faz visível, como clínicas médicas e outros ambientes. Em algumas turmas do colégio, no qual leciona há 11 anos, Maria Ivone propôs a produção de curtas-metragens com situações de racismo cotidiano, vivenciadas por corpos negros, ajudando os estudantes a identificar momentos de discriminação.
A CONCLUSÃO E O SUCESSO PREMATURO
O projeto tem conclusão marcada para o dia 19 de novembro, com uma programação de apresentações e depoimentos para valorizar a história e cultura afrodescendente, incluindo um sarau, dramaturgia, um jogo autoral e mais. O evento contará com um desfile afrofuturista, com um júri composto por três pessoas negras, entre elas uma cantora local que também se apresentará.

