
“Já tenho que estar fora?”: Vorcaro questionou Moraes dois dias antes de ser preso pela PF
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, questionou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a possibilidade de deixar o Brasil apenas dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal. A conversa consta em relatório produzido pela corporação a partir da análise do celular apreendido com o empresário.
Em 15 de novembro de 2025, diante do avanço das investigações envolvendo o Banco Master, Vorcaro enviou uma série de perguntas ao contato identificado pela PF como pertencente a Moraes. Em uma delas, questionou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
As mensagens fazem parte de um relatório da Polícia Federal que teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça no início de setembro. O documento reúne conversas, contratos e outros arquivos encontrados no aparelho de Vorcaro e passou a ocupar o centro da crise envolvendo integrantes do STF.
Vorcaro perguntou se era possível “reverter”
Na mesma sequência de mensagens, Vorcaro demonstrou preocupação com possíveis medidas contra o banco e mencionou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Depois de perguntar se deveria estar fora do país na segunda-feira, o empresário questionou se seria possível tentar reverter a situação com “Paulo ou Andrei”. Para os investigadores, as conversas indicam que Vorcaro possuía informações sobre o avanço das apurações contra o Banco Master antes da deflagração da operação.
Um ponto importante é que as respostas atribuídas a Moraes não foram recuperadas pela Polícia Federal. Segundo os investigadores, parte das conversas ocorria por meio de imagens enviadas no modo de visualização única do WhatsApp. Vorcaro escrevia textos no aplicativo de notas do celular, fazia capturas de tela e enviava as imagens ao contato atribuído ao ministro.
Por isso, o material disponível permite conhecer diversas mensagens enviadas pelo banqueiro, mas não reconstruir integralmente os diálogos nem determinar, apenas com esses registros, o conteúdo das respostas do magistrado.
Questionamentos continuaram na véspera da prisão
A preocupação de Vorcaro continuou no dia seguinte. Em 16 de novembro, ele voltou a procurar Moraes e perguntou se havia possibilidade de uma medida contra ele ocorrer já na manhã seguinte.
As mensagens analisadas pela PF mostram que o empresário buscava informações sobre o andamento das investigações e demonstrava preocupação com o impacto que uma operação poderia provocar no Master. Ele também tentou marcar encontros presenciais durante aquele fim de semana.
Em outra mensagem, Vorcaro perguntou se Andrei Rodrigues poderia atrasar eventuais medidas para a semana seguinte, argumentando que isso evitaria consequências imediatas para o banco.
O relatório policial passou a levantar questionamentos sobre como Vorcaro teria obtido informações relacionadas às investigações que ainda estavam sob sigilo. A PF apontou que o conteúdo das mensagens indicaria conhecimento antecipado sobre movimentos da Operação Compliance Zero.
Banqueiro tentou viajar para Dubai
No dia 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando se preparava para embarcar em um avião particular com destino ao exterior. Pouco antes da prisão, ele ainda enviou uma mensagem ao contato atribuído a Moraes informando que estava indo se encontrar com investidores estrangeiros.
Documentos revelados posteriormente indicaram que a viagem havia sido antecipada. Inicialmente, o empresário teria uma programação para deixar o Brasil no dia seguinte, mas alterou os planos e tentou embarcar no dia 17. A defesa afirmou que a antecipação ocorreu a pedido de investidores estrangeiros e que a viagem tinha como objetivo concluir negociações relacionadas à venda do banco.
Na manhã seguinte, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, enquanto o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
Mensagens foram recuperadas do celular de Vorcaro
O relatório elaborado pela Polícia Federal reúne dezenas de mensagens enviadas pelo empresário ao contato atribuído a Alexandre de Moraes. Os registros analisados abrangem o período entre o final de outubro e 17 de novembro de 2025, data da prisão de Vorcaro.
A PF também identificou mensagens em que o banqueiro demonstrava proximidade com o ministro. Em 14 de novembro, por exemplo, Vorcaro agradeceu a Moraes e afirmou ter grande gratidão pelo magistrado.
Os investigadores também localizaram discussões envolvendo um contrato milionário firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia da família de Moraes. Segundo relatório da PF, metadados de um documento relacionado ao contrato indicariam participação do ministro na edição do arquivo. O escritório e Moraes têm contestado as suspeitas levantadas a partir da investigação.
PGR questiona investigação
A divulgação do relatório provocou forte reação dentro do Supremo e da Procuradoria-Geral da República. A PGR questionou a forma como as informações foram produzidas e pediu a anulação do relatório, argumentando que investigações envolvendo ministros do STF deveriam passar pela autorização do plenário da Corte.
A Procuradoria também informou que pretende investigar possíveis interferências na elaboração do documento policial.
A crise se intensificou nos dias seguintes, envolvendo Moraes, André Mendonça, a direção da Polícia Federal e outros integrantes do Supremo. O presidente da Corte, Edson Fachin, passou a atuar diretamente no caso e convocou uma sessão extraordinária do plenário para analisar questões relacionadas ao relatório e às decisões tomadas durante a disputa institucional.
Até o momento, as mensagens recuperadas mostram o conteúdo enviado por Vorcaro, mas não permitem conhecer integralmente o que Moraes respondeu ao ex-banqueiro. Esse ponto é considerado central para estabelecer o contexto completo das conversas e avaliar as suspeitas levantadas pela Polícia Federal.

