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Devoção por Santa Bárbara toma o Centro Histórico

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

A tradição que atravessa séculos e continua viva no coração do povo baiano volta a tomar as ruas do Pelourinho na quinta-feira (4), quando a Festa de Santa Bárbara será celebrada na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. O ritual, marcado pelo sincretismo religioso, abre o calendário das festas populares religiosas da cidade e reúne moradores, turistas e grupos culturais em um encontro que transforma as ladeiras do Centro Histórico em um mar vermelho de devoção.

Organizada pela Irmandade dos Homens Pretos, a celebração tem raízes profundas na fé baiana. A devoção à santa – conhecida como protetora contra tempestades, trovões e padroeira do Corpo de Bombeiros -, remonta à história de Bárbara, jovem cristã martirizada no século III pelo próprio pai. Em Salvador, sua simbologia ganha força no Pelourinho, onde o vermelho das vestes e dos adereços toma conta das ruas e se transforma em expressão coletiva de fé.

Mas o vermelho que domina o Centro Histórico não pertence apenas ao universo católico. O Dia de Santa Bárbara também é o Dia de Iansã, orixá dos ventos, das tempestades, do fogo e da transformação. Para as religiões de matriz africana, especialmente o candomblé, 4 de dezembro é um dos dias mais sagrados do calendário espiritual. O sincretismo entre Santa Bárbara e Oyá nasce da resistência dos africanos escravizados, que associaram a imagem da santa à força do orixá para preservar seus ritos diante da repressão colonial.

A preparação para o grande dia começou ainda no início da semana, com o tríduo celebrado pela Irmandade dos Homens Pretos. O grupo, guardião da Igreja do Rosário e responsável pela condução da festa desde 1987, vive este período como missão e herança. “Nós recebemos esse legado e procuramos levar à frente da melhor forma possível, louvando e reverenciando Santa Bárbara”, afirma Ana Cristina, irmã da devoção. Membro da Irmandade, ela destaca que novembro é inteiramente dedicado à organização da celebração, que envolve reuniões, articulações com autoridades e a intensa participação dos irmãos da Irmandade.

Programação

A programação desta quinta (4) segue a tradição que encanta moradores e visitantes. Após a Alvorada de Fogos e a Salva dos Clarins, a Missa campal será celebrada às 8h, reunindo devotos no adro da igreja. Em seguida, a procissão percorre as ruas históricas do Pelourinho – Gregório de Mattos, João de Deus, Terreiro de Jesus, Praça da Sé e Ladeira da Praça – até chegar ao Corpo de Bombeiros, onde ocorre uma homenagem especial à padroeira da corporação. O cortejo segue pela Baixa dos Sapateiros e retorna ao Pelourinho, encerrando-se na igreja. À tarde, às 15h, apresentações culturais reforçam a integração entre tradição, fé e arte.

Segundo Ana Cristina, a celebração cumpre um papel decisivo na preservação das festas de largo, manifestações que enfrentam o risco do tempo e das transformações urbanas. “Santa Bárbara tem esse poder de encher a praça do Pelourinho de fiéis que cantam, dançam, oram e sambam. É um resgate das festas populares, que precisam ser mantidas vivas”, afirma.

Ela reforça que a Irmandade, marcada pela ancestralidade e pela resistência do povo negro, carrega responsabilidade histórica. “Somos uma casa de fé e resistência. Recebemos essa missão e tentamos manter viva essa devoção a Santa Bárbara e essa festa tão bonita, que todo ano transforma o Largo em um mar vermelho de devotos.”

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